HAP: Possíveis relações entre genética e a infecção pelo HIV

A hipertensão arterial pulmonar (HAP) é uma condição clínica rara e grave, caracterizada por elevação persistente da pressão arterial pulmonar e remodelamento vascular pulmonar, evoluindo frequentemente para insuficiência ventricular direita e morte. Embora, em alguns casos, a HAP apresente causa desconhecida (HAP idiopática), estudos apontam influências genéticas e infecciosas — como o HIV — como potenciais fatores na origem ou agravamento da doença.1-4

Genética e mutação no desenvolvimento da HAP¹

A forma hereditária da HAP (HPAH) é comumente causada por mutações no gene BMPR2 (receptor de proteína morfogenética óssea tipo 2), responsável por aproximadamente 75% dos casos de HAP familiar.3

Essas mutações interferem em processos celulares essenciais e promovem proliferação anormal de células da parede vascular pulmonar. Apesar de menos frequentes, mutações em diversos outros genes além do BMPR2, relacionados ao funcionamento normal das células, também foram associadas à HAP.3,5

Embora a mutação seja fator central, nem todos que têm essa alteração genética desenvolvem a doença, o que indica fatores genéticos, hormonais e ambientais envolvidos.3,5

Estudos ainda revelam que formas idiopáticas de HAP podem, na verdade, ser genéticas não reconhecidas, especialmente quando o histórico familiar é desconhecido. Esses casos devem ser cuidadosamente avaliados para fins de aconselhamento genético e triagem familiar.3

Infecção por HIV como fator relacionado à HAP

A infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) tem sido reconhecida como uma possível causa associada à HAP. Embora rara — com incidência estimada em 0,5% entre os infectados pelo HIV — a HAP associada à síndrome da imunodeficiência adquirida (SIDA) apresenta um prognóstico reservado e evolução rápida quando não tratada.4

A fisiopatologia dessa associação ainda não é completamente elucidada. O material genético do vírus não foi identificado nas células endoteliais pulmonares, sugerindo que o HIV pode contribuir indiretamente por meio da liberação e ativação de citocinas, fatores de crescimento e endotelina-1, promovendo inflamação vascular e remodelamento da parede das artérias pulmonares. Além disso, pacientes com HIV e HAP frequentemente apresentam níveis elevados do biomarcador NT-proBNP, refletindo sobrecarga e disfunção ventricular direita.4

Em um relato de caso clínico brasileiro com cinco pacientes HIV+, a média da pressão média da artéria pulmonar foi de 63 mmHg e a evolução clínica foi desfavorável, com três óbitos registrados, evidenciando a elevada gravidade da HAP associada ao HIV.6

Considerações finais

A HAP inclui formas idiopática, hereditária (associada a mutações em genes como BMPR2) e formas associadas a outras condições, como a infecção pelo HIV. A identificação de variantes genéticas em casos hereditários e em parte dos casos idiopáticos ressalta a importância do aconselhamento para pacientes e familiares.3,4

Reconhecer esses mecanismos distintos é essencial para o diagnóstico preciso, escolha terapêutica e aconselhamento adequado de pacientes e familiares. Avanços na genética e na medicina de precisão podem abrir caminhos para terapias mais eficazes no futuro.3,7

Referências:

  1. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas – Hipertensão Pulmonar. 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/ptbr/assuntos/pcdt/h/hipertensao-pulmonar Acessado em 18 de novembro de 2025.
  2. Duncan MS, Alcorn CW, Freiberg MS et al. Association between HIV and incident pulmonary hypertension in US Veterans: a retrospective cohort study. Lancet Healthy Longev. 2021;2(7):e417-e425.
  3. Ruopp NF, Cockrill BA. Diagnosis and Treatment of Pulmonary Arterial Hypertension: A Review. JAMA. 2022;327(14):1379-1391.
  4. Basyal B, Jarrett H, Barnett CF. Pulmonary Hypertension in HIV. Can J Cardiol. 2019;35(3):288-298.
  5. Austin ED, Loyd JE. The genetics of pulmonar arterial hypertension. Circ Res. 2014;115(1):189-202.
  6. Mendes AA, Roncal CG, Costa VL et al. Hipertensão pulmonar associada à síndrome da imunodeficiência adquirida: apresentação de cinco casos e revisão da literatura. Rev. Soc. Bras. Med. Trop. 2009;42(4):1-6.
  7. Morrell NW, Aldred MA, Chung WK et al. Genetics and genomics of pulmonary arterial hypertension. Eur Respir J. 2019;53(1):1801899.